quarta-feira, 6 de agosto de 2008

conversa de botão

“pensamento, estou indeciso”, disse-lhe o botão, “quanto mais me dizes, menos claro fico”.

“mas botão”, respondeu-lhe o pensamento, “eu quando falo contigo, não estou à espera que fiques a pensar, afinal de contas és só um botão e eu, sou o tudo. sou o tudo e sou o nada, sou o vazio cheio de muito e com espaço para mais. sou o que sou até deixar do o ser porque estou sempre a mudar, permeável às experiências do engano na procura da verdade. vou e venho e torno a voltar até desaparecer na hipótese de nunca me conseguir esquecer”.

“mas pensamento, ai é que acho que estás enganado. eu não sou só um botão, sou aquele que te vê, que te ouve e que faz com que esta prosa possa existir. encostas-te a mim e sou eu que te empurro numa outra direcção, sou a origem do movimento a que chamas de reflexão. sem mim pensamento, serias uma ideia diluída nela própria sem o poder da transformação.

e é por isso que me confundes pensamento, depois de tantas coisas em que já te tornaste, pela multiplicidade que já experimentaste, espanta-me apurar que ainda não tenhas entendido que a tua existência não passa de uma ilusão criada pelo involuntário da imagem de quem te lê.

ao que parece, pensamento, dependemos de mais alguém para podermos deixar de ser ninguém”.

Sem comentários: